sexta-feira, 28 de março de 2008

AMIZADE

Pensava que a amizade era o melhor e mais simples sentimento do mundo. Pode ser a melhor coisa do mundo, mas pode não ser, de todo, simples.
Achava que só as relações amorosas eram intensas e poderiam provocar dor. Que só as relações profissionais podiam originar tensão e descoberta. Que só as relações familiares podiam ser recheadas de passado e amor. Que só as paixões eram difíceis de avaliar e interpretar. Enganei-me redondamente.
Como uma amiga de infância, uma amizade pode existir desde que nos lembramos de existir ou cheirar a fresco. Pode culminar em momentos de afecto ou de ódio, como foi o caso da minha amiga que dormiu com o namorado da outra amiga. Não deixaram de ser minhas amigas, mas nunca mais se falaram.
Uma amizade pode assentar na entreajuda ou na rivalidade, e pode motivar acessos de compaixão ou de ciúme. Quem já não teve uma amizade que sofreu com o aparecimento de uma terceira pessoa?
Como as conversas de desabafo em final de dia podem ser um calmante, há telefonemas que se podem tornar cafeína durante a noite.
Uma amizade pode fortalecer à distância ou desvanecer-se mesmo debaixo do nosso nariz. Pode ser construída na base da confiança ou da mentira. Pode ser motivo de alegrias ou de tristezas. Pode enaltecer-nos ou assolar-nos. Pode amadurecer ou nunca chegar a crescer.
E como se não bastasse, as relações de amizade, são fáceis de apanhar, como a gripe. Podem proliferar em qualquer meio. No bairro onde vivemos, na escola que frequentámos, no emprego que temos, no ginásio onde vamos, nas viagens que fazemos ou na internet que navegamos. Podem surgir entre sexos diferentes, crenças distintas, interesses divergentes, idades díspares, posses desiguais ou culturas diversas. Como a minha amiga muçulmana, que vive em África, mas que foi a minha experiência de amizade mais intensa, de quem me afastei geograficamente, mas a quem ficarei para sempre ligada. Como o segurança do edifício onde trabalho, que, todos os dias, me recebe com um aconchegante cumprimento. Como o meu amigo hindu, que só viaja em executiva e me faz saltar o coração de expectativa sempre que me visita. Como a minha amiga de sempre e que sempre me acompanha. Como o meu amigo árabe, que vive no médio oriente, mas que, através das tecnologias de informação, parece estar sempre ao meu lado. Como a minha irmã, que não vê com os olhos, mas que me enxerga muito mais.
Afinal, uma amizade é o mais comum, provável, versátil e descuidado dos sentimentos. Desprezamo-lo em detrimento de sentimentos mais raros, inverosímeis, análogos e inquietos, como o amor ou a paixão. Mas no final, a probabilidade de nos iludirmos e desiludirmos com a amizade, é um perigo muito maior, mas inevitável. Quem quer arriscar a não ascender ao estado sublime de ter um amigo?!

domingo, 9 de março de 2008

Jan08 Neve SN




Nov05 Deserto - Sahara - Marrocos














Quem descobriu esta viagem na net foi a Sónia, mas fui eu que fiquei mais entusiasmada com os preparativos. Onde é o ponto de encontro, como lá chegamos, o que levamos para não exceder os 12kg de limite de bagagem, as temperaturas, e mais uma quantidade de coisas a estar atentas para uma viagem com 150km de caminhada sem camas, casas de banho, shoppings ou transportes públicos. No fundo seria uma viagem para refrescar o espírito e aquecer o físico.
Primeira decisão a tomar: vamos de carro ou de avião? Decidimos ir de avião, na Air Maroco, Lisboa – Marrakech, com escala em Casa Blanca. Foi a melhor decisão dado o tempo disponível, apesar do facto do avião de regresso ter sido cancelado por nenhuma razão aparente. Acabámos por regressar via Madrid e chegar a casa umas doze horas depois do previsto.
Segunda decisão: levamos roupa de Inverno ou de Verão? Decidimos por tee-shirts para o dia e polares para a noite. Óptima decisão para os 25 graus diurnos e os zero, ou negativos, nocturnos.
Terceira decisão: garrafas de água ou purificantes para a água? Decidimos comprar os pequenos comprimidos purificantes de água, mas ainda bem que acabámos por comprar quarenta garrafas de 1,5 litros de água (2 a 3 litros de água por dia por pessoa), porque a água purificada dos poços que encontrámos pelo caminho, deve ter sido uma das principais causas dos desarranjos intestinais de algumas pessoas na expedição.
E as decisões continuaram a ser tomadas para serem testadas quando já não haveria retorno. Sim, porque tínhamos consciência de que não encontraríamos uma boutique no meio do deserto para comprar um casaco mais quente.
Viajámos, devagarinho, num avião a hélice, do qual não me lembro o nome, entre Lisboa e Casa Blanca, e, rapidamente, num boing 737, entre Casa Blanca e Marrakech. Parece um bocado despropositado, mas deve ser o reflexo da opção da maior parte das pessoas, que viaja de carro, de Portugal até Marrocos.
Assim que saí do avião percebi que estava em África (apesar de estar no único país africano que não faz parte da União Africana). Uma África mais próxima, mais clara, mais árabe, mas África. A confusão e o caos não enganam ninguém. Peões, carros, motas e bicicletas que circulam sem regras. Quer dizer, a regra é tentar não ser atropelado! Mas no fundo, a confusão parece ter alguma ordem invisível, porque ninguém se queixa e tudo se movimenta. O movimento nas estradas, nas estreitas ruas da Medina, na praça Jamaâ El Fna, nos suques, em todo o lado.
Tínhamos um jipe à nossa espera no aeroporto, para nos levar ao hotel. Só que não nos deixou propriamente à porta do hotel e foi a altura em que me arrependi de não ter trazido uma mochila ou um trolley, em vez do saco, sem alças nem rodas, que tive de carregar por várias vezes, por aquelas ruas estreitas, apinhadas de pessoas e veículos de duas rodas, mas onde os carros não cabem.
Chegar ao hotel, foi um alívio, daqueles parecidos com chegar à praia da Costa da Caparica e mergulhar na água fria do mar, num fim de semana de Julho, depois de ter estado duas horas no trânsito, dentro de um carro sem ar condicionado.
Ao passar a porta do hotel, que passava despercebida no meio de tantas portas que ladeavam a estreita e movimentada rua, senti-me no meio das mil e uma noites, embora não estivesse lá o Aladino. Uma construção tipicamente árabe, em forma de quadrado, com as janelas dos quartos a darem para um pátio central, como as que se encontram espalhadas pelo sul de Espanha, devido à influência árabe, mas muito mais exótico, mais luxuoso, mais inebriante. As cores, a iluminação, a decoração, fazia parecer tudo muito mais intenso.
O encontro com o grupo que faria a expedição estava marcado para o dia seguinte de manhã, por isso tivemos essa noite para a primeira exploração à cidade, embora não tenhamos ido muito longe, já que estávamos a 5 minutos da praça Jamaa, o centro da animação de Marrakech. Nesta praça o movimento nunca para, quer sejam 10 horas da manhã ou 11 horas da noite. De dia, os sumos de laranja natural e as serpentes encantadas para turista ver. De noite, as kebabs, os contadores de histórias, as músicas, as pinturas de hena. A toda a hora, os suques, com as suas lojas apinhadas de artigos de pele, louça, pratas, especiarias, tecidos, animais e chá de menta. O chá de menta! Até hoje, em nenhum outro local bebi chá de menta fresca como em Marrocos. No hotel, nos pequeninos cafés dos suques, nos restaurantes, no meio das dunas ou das pedras da orla do deserto, à beira da estrada, debaixo de uma tenda, o chá de menta fresca era irrecusável.
Finalmente conhecemos todos os elementos do grupo que partiria na aventura de percorrer 150km, a pé, durante 9 dias.
12 turistas: eu e a Sónia, portuguesas, uma austríaca, uma húngara, duas australianas, uma canadiana, uma americana, uma japonesa e três ingleses, uma rapariga de Londres, um rapaz de Manchester e um outro de New Castle. Mais uma semi-turista, a Gwen, 34 anos, funcionária da empresa inglesa, organizadora da viagem, que fazia a sua última viagem em Marrocos, dado que tinha sido entretanto colocada no Quénia.
Um guia, um cozinheiro e três homens que tratavam dos camelos.
No total, 18 pessoas, 7 homens e 11 mulheres, entre os 24 e os 54 anos, 9 nacionalidades diferentes e 7 camelos.
Para chegar ao ponto de encontro com o acampamento, viajámos durante um dia inteiro, distribuídos em 2 jipes. Atravessámos a cadeia montanhosa do Atlas, almoçámos em Ouarzazat e seguimos para sul, até sairmos da estrada asfaltada e já sem luz do dia durante algumas horas. Lá chegámos algures, onde estavam instaladas 2 tendas grandes, a “cozinha” e a “sala”, de jantar e de estar, que nos iriam acompanhar durante centena e meia de quilómetros.
Ao princípio parecia uma tarefa impossível, montar as tendas iglô, dois a dois, apenas com a luz das lanternas, mas passado algum tempo, depois dos faróis dos jipes já irem longe, os olhos habituaram-se, e afinal é possível fazer tudo com a luminosidade da lua, 13 lanternas pequenas e dois candeeiros a gás, que ficavam dentro das tendas grandes. Iluminadas pelo interior, estas assemelhavam-se a dois grandes cubos assentes no chão, que pareciam pendurados pelo centro do lado superior, devido à estaca central que sustinha as lonas brancas.
A tarefa da montagem da tenda no final do dia, e desmontagem, na manhã seguinte, repetiu-se 8 vezes, e se tivéssemos cronometrado o tempo de montagem da tenda na primeira e na última noite, teríamos ficado surpreendidas. Mas o que mais me assombrou foram as idas ao “wc”, ou à “loo”, termo inglês que acabou por ser usado por todos, já que o inglês foi a língua usada na comunicação. “I am going to the loo”, foi uma das frases que mais ouvi durante aquela semana. Naquelas circunstâncias era importante ir gritando esta frase até ao local escolhido, para que ninguém aparecesse por aquela zona com a mesma intenção. O engraçado é que na primeira noite, os avisos eram persistentes e alongavam-se por muitos metros. Com o passar dos dias, os avisos estavam cada vez mais perto. Na primeira noite, depois de andar quase um quilómetro, ainda achava que alguém me podia ver, ao mesmo tempo que temia estar tão longe, se algum animal rastejante do deserto decidisse aparecer. Na última noite, saí da tenda e quase que fiz ali mesmo. Mas essa também foi a noite mais fria e mesmo que quisesse, não conseguia andar muito sem congelar.

A rotina diária começava bem cedo. Acordar com o despertador “wake up the portuguese girls”, no volume máximo. Fazer a higiene matinal, ao ar livre, com a escova de dentes e os dodot, atrás de uma duna e com um frio do caraças. Desfazer a tenda. Fechar as malas e deixar tudo pronto para ser carregado para cima dos camelos. Tomar o pequeno almoço: cereais, leite em pó, pão, manteiga e chocolate para barrar, café, chá e pacotes de sumo de laranja. As variações incluíam areia ou não!
Deixávamos o acampamento com o guia, o Mustafa, e começávamos a caminhada. No final da manhã, a caravana dos camelos passava por nós e um deles ficava para trás com o cozinheiro. Era o camelo do almoço. Então, no meio das dunas, em cima de pedras ou simplesmente debaixo de uma árvore, almoçávamos.
As refeições baseavam-se em tubérculos e vegetais cozidos ou simplesmente saladas. O jantar incluía uma sopa, a famosa sopa cor de laranja, que soube deliciosamente nos primeiros dias, mas que já ninguém aguentava no final da viagem. Por vezes tínhamos atum enlatado para acompanhar. Tivemos cuscus, e nos primeiros dias, carne guisada. Para sobremesa tínhamos normalmente fruta. E chá, muito chá!
Uma noite fez-se pão! A massa foi amassada e atirada, sem qualquer invólucro, para um buraco feito na terra, mesmo por baixo das cinzas de uma fogueira antecipadamente ateada. E surpresa, um pão delicioso e sem um grão de areia. Unbelievable! Apesar de não termos onde reabastecer a dispensa, não nos faltou pão fresco.
Voltando à rotina diária. Depois do almoço vinha a caminhada da tarde e no final do dia, encontrávamos novamente o acampamento base. As duas tendas quadradas de lona branca esperavam-nos, para voltarmos a rodeá-las de pequenas meias luas azuis e cinzentas.
Montar as tendas, jantar e conviver sem opção até cairmos cansados nos sacos-camas, no chão.

No quarto dia chegámos a um pequeno oásis. Um micro oásis, com meia dúzia de palmeiras na ponta de uma enorme planície de tons castanhos, a anteceder uma estreita passagem, como se fosse a única saída de uma cratera. Nesse local existia um auberge, uma construção de areia, que me fez lembrar os castelos de areia da praia, imagem que me veio à cabeça sempre que me deparei com os casbah, com os seus acabamentos perfeitos. Tivemos direito a duche. De água quase fria, mas duche, o primeiro e único até deixarmos o deserto.
Este local é uma espécie de ponto turístico no roteiro do deserto, pois trata-se de um dos pontos de passagem do ex-Paris-Dakar. Daí as paredes do interior da construção estarem cobertas de fotos, mapas, folhetos e posters com assinaturas de pilotos de rally.
Nessa noite fizemos uma festa, com muita música ao vivo, tocada pelos marroquinos, e muito vodka, um bem valioso, e que por isso estava exposto ao lado das garrafas de água, nas barracas da última vila onde passámos antes de entrar no deserto.
Lembro-me de pararmos numa estação de combustível da BP, e enquanto os motoristas abasteciam os jipes pela última vez, atravessámos a estrada e percorremos a fila de barraquinhas para fazer as últimas compras.
A estação de serviço tinha um café. Entrei para tomar um chá e deparei-me com o que poderia ser um qualquer café central de uma aldeia portuguesa. Vários homens atentos à televisão, que ficaram mudos e olharam para nós curiosos.
Voltando à noite no auberge. A festa foi o máximo e aproveitámos para celebrar o aniversário do David, que passou a chamar-se King David, já não me lembro muito bem porquê. O problema foi voltar ao acampamento. Experimentem fazer trezentos metros numa completa escuridão, apenas com umas pequenas lanternas, e sem qualquer ponto de referência. A lua estava de folga!

Talvez no 5º ou 6º dia, atravessámos uma área de pequenas dunas, seguidas dum imenso palmal. Acampámos ao lado duma pequena aldeia que parecia, literalmente, feita de areia, quase passando despercebida na paisagem. Não visitámos a aldeia por sugestão do guia. Incomodar os habitantes daquele local longínquo, com o nosso ar de turistas curiosos, não fazia parte dos planos. Limitámos-nos a brincar com os miúdos que correram ao nosso encontro, eles sim, muito curiosos.
De costas para o acampamento vi o pôr do sol. A contra luz dos raios baixos desenhava os contornos do poço e da árvore ao seu lado. Uma árvore baixa, de troncos finos e uma ramagem superior achatada. Estou a olhar para uma das fotos que tirei nesse momento, e que tenho exposta na minha sala. Fantástico!

Há um enigma no deserto que ninguém conseguiu desvendar. No local mais amplo e solitário, a probabilidade de aparecerem, sem pré-aviso nem qualquer explicação, um ou muitos miúdos, a correrem, vindo de lado nenhum, para venderem camelos feitos de tecido com missangas ou fósseis do deserto, é enorme.
Afinal sempre tivemos shopping times!

Chegámos a um local perdido no tempo e no espaço. Uma espécie de ruínas, com restos do que pareciam antigas casas, e um poço escondido no meio das pedras.
Montámos as tendas dentro das paredes recortadas e na manhã seguinte eu e a Sónia descobrimos uma aranha gigantesca, quer dizer, grandinha para o que estamos habituadas a encontrar. Instintivamente começámos a gritar, mas não fizemos nada para sair da tenda, que tinha dois conjuntos de fechos para abrir. E do lado de fora o grupo ficou expectante, sem saber o que fazer. “a spider, a big spider”, e pronto começou a risota. Mas era de facto uma grande aranha.
Nesse dia choveu e levantou-se uma tempestade de areia fina, parecida com nuvens de pó, que se metia em todo o sítio. Só nessa altura dei valor aos turbantes na cabeça, que rapidamente se tornam verdadeiras mascaras contra a insistente areia.
A chuva foi ligeira, mas suficiente para tornar um curso de água seco, em lama, uma verdadeira armadilha para os camelos. Carregados, enterraram as suas longas pernas na lama, e não conseguiam sair sozinhos. Tivemos que descarregar os sete camelos, enterrados na lama até aos tornozelos, e com a areia fina a tentar fustigar qualquer pedacinho de pele à vista. Foram algumas horas de aflição, enquanto não vimos os camelos fora de perigo e sem nenhuma perna partida.
Nesse dia, chegámos a um vale espaçoso e plano, no meio de dunas enormes. Foi uma visão extraordinária, porque as dunas tinham aquela tonalidade do final da tarde, douradas, com sombras cobre em curvas com arestas alaranjadas e outras mais amarelas. Só que a tempestade de areia, que já nos acompanhava desde manhã, tornava a paisagem quase turva, como um quadro sépia. Acampámos nesse espaço plano, com um poço delimitado à superfície por uma pequeno muro de pedra, no meio de duas árvores, altas, esguias e com escassa folhagem. Para qualquer dos lados que olhássemos, o horizonte estava num plano acima das nossas cabeças, no cimo das dunas que nos rodeavam.
Foi nesse local que contornei uma duna enorme à procura de um local apropriado para fazer xi-xi, quando me deparei com uma imagem, no mínimo, insólita. 6 pessoas, 3 tendas, 10 camelos e um WC portátil!
Nessa noite fizemos uma fogueira e ficámos à volta dela, a dançar ao som da música árabe, tocada pelos rapazes dos camelos, os dois homens e o rapaz que tratavam dos dromedários. Carregavam os bichos, davam-lhes de comer, normalmente os restos dos nossos vegetais, base da nossa alimentação, dia sim, dia sim, até ao final da longa caminhada. O mais engraçado, é que dormiam com eles. Sim, dormiam sob as estrelas, apesar do frio e do cheiro dos animais. A verdade é que para abraçar o Fluffy, o meu camelo favorito, castanho claro e com patas felpudas, não me importei nada com o cheiro. Também, o que diria ele de mim, quatro dias sem duche, a toalhetes para bebé, e com areia em toda a parte do corpo.
Adiante. Nessa noite da música à volta da fogueira, os marroquinos organizaram um casamento típico, em que eu fui a escolhida para noiva do Hassan, o rapaz dos camelos. O Hassan, era o dono dos camelos, ou irmão do dono dos camelos, ou da família do dono dos camelos, whatever. 23 anos. Muito bonito. Uma espécie de versão moderna de Laurence da Arábia. E achou que estava apaixonado por mim. Como se pode ficar apaixonado por uma turista, no espaço de uma semana, a andar no deserto! Tentei explicar-lhe que eu nem sequer era loira, mas ele achou que eu era a rapariga ideal para oferecer camelos. Recusei as ofertas para conhecer os tais dos camelos, mas nessa altura já não estava tão certa disso, porque no último dia, quando chegámos ao final do tour em regime de acampamento com pensão completa, perto da vila onde ele e os camelos viviam, apareceu-nos todo lavadinho, bem cheiroso e com o seu turbante branco. Parecia uma miragem. Qualquer coisa nos parecia uma visão, depois de 10 dias sem ver qualquer outro ser humano lavado, incluindo nós. Quando digo nós, digo as 11 raparigas, estupefactas, a olhar para o Hassan. Ficavam a observá-lo à distância, com as objectivas das máquinas fotográficas focadas e a comentar “how gorgeos he is!”.
E nada disto o impediu de me ligar para Portugal, uns dias depois, a falar em árabe e francês, línguas que eu domino muito bem se for para dizer salamalecum ou au revoir. Foi um telefonema interessante, uma mistura de português, inglês, francês e árabe, sem tradução possível.

No último dia atravessámos as Dunas de Erg Chebi. Foi uma experiência extraordinária. Parecem apenas dunas de areia fofa, mas subir os 400m, nas arestas serpenteantes, com a areia a fustigar-nos as pernas como agulhas, é um pouco assustador.
Mais uma imagem inesquecível. O nascer do sol projecta diferentes intensidades de luz na areia, dando a ilusão de que as dunas se movem, com as suas sombras e curvas!

Nessa manhã deixámos Mezouga, sobre rodas, passámos em Erfoud e a promessa de um banho estava cada vez mais perto.
Depois de um duche de uma hora, na tentativa frustrada de retirar toda a areia do meu cabelo, percebi que esta tinha sido uma viagem fascinante a não repetir. Como fazer um salto de bungee jumpimg: foi o máximo, já percebi qual é a sensação, ainda bem que fiz, está feito, e não vou repetir!

sábado, 8 de março de 2008

OLIVIAS E SOFIAS


Pergunto-me, muitas vezes, principalmente quando estou a vestir-me, descontraidamente, e tenho dificuldade em apertar o fecho das calças, que, by the way, comprei no princípio da desta estação, quem foi o anormal que deu início às tendências anoréxicas da moda actual, e de há alguns anos a esta data.
Durante a minha adolescência nunca pensei muito nesta questão, porque os meus ídolos eram as campeãs de ginástica rítmica, sem mamas nem rabo a atrapalharem a graciosidade dos movimentos. Na década dos “intes” a pergunta nem me ocorreu. Atribuí as culpas ao sexo oposto. Dada a minha condição de heterossexual, era óbvio que deveriam ser os homens os responsáveis pelo escrutínio sobre nós mulheres como objectos sexuais que também somos. Mas só há pouco tempo, na altura em que os fechos e os botões me começaram a incomodar, tive a necessidade de explorar a questão e descobri que quem inventou a moda das magrezas só pode ter sido uma mulher. Provavelmente uma mulher semelhante a um monte de ossos andante, que viveu a sua adolescência com o complexo da falta de curvas, teve uns pais fans dos filmes da Sofia Lauren, e foi perseguida pela alcunha de Olívia Palito. Provavelmente a Olívia coleccionava “5” a educação visual e decidiu concentrar-se na sua vingança pessoal contra as curvas femininas.
É a única explicação que encontro, já que os homens até preferem a voluptuosidade nas mulheres. Basta comparar as modelos das passerelles que revelam as tendências da próxima estação nas revistas femininas (quais cabides andantes), e as que posam para as revistas masculinas, ao lado de todo o tipo de tecnologias que chamam a atenção dos homens. É muito óbvio!
Só quero que isto mude depressa e que alguma adolescente perseguida pelos seus pneus (que nem precisam ser muito grandes), que tenha jeito para o desenho, se aventure em Paris e faça alguma concorrência à Fátima Lopes. Eu gosto da Fátima Lopes, da sua preserverança e sucesso, mas já faz falta uma Fátima II que não poupe no tecido e desenhe umas roupitas que caiam bem sobre peitos grandes e ancas largas (sem querer plagiar o Mo Yan). Afinal a sobrevivência da espécie humana assenta nisso mesmo, nos ícones da fertilidade e procriação, e é preciso rejuvenescer a população, que, ao que parece, envelhece a passos largos. E eu preciso de me continuar a vestir descontraidamente, sem pôr em causa a minha auto-estima, ou porque tenho dificuldade em que a roupa me assente como à modelo que aparece no catálogo, ou porque não me apetece contribuir mais para o lucro das clínicas de estética. Voltem as Sofias, as Brigittes e as Merylins do século passado, please!

Nov04 Dubai


23 de Novembro de 2004, 00:30

Finalmente chego ao aeroporto internacional Rashid qualquer coisa, no Dubai. Finalmente, mas ainda bem que na companhia aérea dos Emirates Árabes Unidos. Basicamente, a classe do povo (aquela em que viajei), assemelha-se à executiva de muitas outras companhias aéreas. Vocês vão gostar!
Pareceu-me ter aterrado num oásis de luz, no meio de um imenso deserto, depois de ter confundido as sombras das dunas de areia ao luar, com ondas do mar. Apesar da idade, é a minha primeira vez no deserto!
À saída do aeroporto, o impacto é semelhante ao de quem chega a um qualquer destino tropical: uma onda de calor e humidade que nos bate como um soco.
E lá estava a minha amiga Sara, no meio de uma multidão de árabes, a acenar para que eu não ficasse muito tempo com aquela cara de parva, de quem procura alguém, não sabe muito bem onde.
O Dubai é uma cidade hi-tec, desenvolvida nos últimos 50 anos, no meio do deserto, e isso é que a faz tão diferente. Tem o hotel mais caro do mundo, o(s) prédio(s) mais alto(s) do mundo, as corridas de cavalos com o prémio mais elevado do mundo (e também as de camelos...), o campo de golf mais importante dos circuitos mundiais e, a maior quantidade dos melhores carros do mundo por km2, conduzidos por árabes muito charmosos e vaidosos, sem excepção de sexo, testemunham as maquilagens, óculos Chanel e relógios Cartier, a espreitarem por debaixo dos panos.
As praias são quentes (o que no verão as torna praticamente interditas), de areias claras, palco de passeios de camelos coloridos, para turista ver, águas cristalinas e muito salgadas (boas para quem gosta de boiar!), e só virando as costas ao mar, nos damos conta que o pano de fundo é uma metropole de betão.
As mesquitas são muito bonitas, pelo menos pela sua beleza arquitetónica exterior (embora tenha conhecimento de que existe uma mesquita cuja entrada é permitida às senhoras), num país onde as leis do islão imperam.
A riqueza assume uma forma quase luxuriante e a pobreza parece não existir (pelo menos a olho nu). Os recursos energéticos resumem-se ao petróleo, disponível a 1/5 do preço do resto do mundo, e a água, um bem precioso no deserto, não impede a existência de espaços verdes a enfeitarem toda a cidade.
O ritmo é frenético, numa cidade em crescimento, como um gigantesco estaleiro, muito bem organizado, à beira do Golfo Pérsico plantado.
Para quem tem vertigens, não aconselho a subida às torres dos Emirates, nos elevadores panorâmicos. Aconselho, mesmo a quem sofre de problemas cardiacos, o desert safari. A não perder, o passeio pelos mercados tradicionais da cidade. Aproveitem para saborear a gastronomia do médio oriente e percam-se com os odores do oriente, tão agradáveis.
Se tiverem amigos no Dubai (é provável, dados os mais de um milhão e meio de estrangeiros residentes), vale a pena visitá-los. Contudo, podem não ter muito tempo para vos acompanhar, dado que trabalham de sol a sol.

Jun06 Aventuras pela Sibéria

Viva a todos!
Atendendo aos pedidos de muitas famílias, vou tentar relatar-vos, o mais resumidamente possível, os percauços da minha expedição à Sibéria!A ideia inicial era percorrer uma grande parte do norte do continente asiático através do comboio mais conhecido como Trans-Siberiano, mas que correctamente se chama Trans-Mongolia. Passo a explicar. O Trans-Siberiano apenas atravessa a Sibéria. O Trans-Mongolian atravessa ainda a Mongólia e termina em Pequim. E ainda há o Trans-Manchuria, que atravessa a Sibéria e vai directo a Pequim sem passar pela Mongólia, mas passando pela Manchuria. Nós escolhemos o Trans-Mongolia. Quando digo nós, digo eu e a minha amiga Sónia, que após mais esta viagem aventura disse "Nunca mais me apanhas numa destas!". Mas já foi pior. Quando atravessámos 150km no deserto do Sahara, a pé, a dormir em tendas e sem água para duche, ela passou a maior parte dos 10 dias a murmurar "Mas quem é que raio teve esta ideia?!".
A ideia desta viagem foi minha. Dois meses antes tratei de tudo através da internet e com tudo já marcado e parcialmente pago, a Sónia tratou dos vistos. Pensámos que esta seria a tarefa mais fácil, mas para azar da Sónia, foi a mais complicada. Os vistos para a China até foram fáceis. Os vistos para a Mongólia implicaram a viagem dos nossos passaportes até França, dado que a Mongólia não tem representação em Portugal. O mais difícil e complicado foram mesmo os da Rússia. Não vos vou contar pormenores, mas posso-vos dizer que tivemos que arranjar os chamados Visa Invitation para entrar na Rússia e pedir a uma agência de viagens especializada em viagens à Rússia para nos solicitar os vistos junto da embaixada da Rússia em Lisboa, dado que esta não aceita pedidos de vistos por parte de entidades individuais (estão a ver o lobby!). Outra característica é o facto da embaixada russa em Portugal não emitir vistos além do período de tempo em que se vai estar no país, ou seja, é necessário ter estadia e transportes marcados para que os vistos sejam emitidos. Só para um visto da Rússia foram cerca de 250 euros! Mais um bocadinho e os vistos ficavam quase tão caros como o resto da viagem!
Só mais uma curiosidade, a agência de viagens que nos ajudou (ou complicou!) na obtenção dos vistos, comercializa uma viagem com um percurso idêntico ao que escolhemos, e o preço quase duplicava o valor total das nossas marcações. Não vos posso dizer ao certo quanto gastámos porque acabou por não acontecer o que tínhamos previsto e com o alojamento adicional e novos bilhetes de avião, já não sei ao certo quanto gastámos, contudo não deve ter ultrapassado os 3 mil euros por pessoa.
Estão a ver a complexidade desta viagem, ainda nem partimos e já tenho dois grandes parágrafos escritos. Mas estas explicações são importantes para compreenderem o que se passou.

Dia 1 de Junho de 2007
7:00, saí do banco, fui ter com a Sónia e fomos de férias! Chegámos ao aeroporto de Madrid - Barajas cerca das 22:00, hora local e decidimos dormir no Terminal 4, onde iríamos apanhar o avião para St. Petersburg, às 06:00 da manhã seguinte. Esta foi talvez a coisa mais radical que vi a Sónia fazer. Ela queria experimentar como se dorme num aeroporto! Só não tivemos em consideração que o pessoal que dorme nos aeroportos carrega sacos-cama às costas, que acabam por ser muito úteis para se conseguir dormir num chão de pedra frio!

Dia 2 de Junho
No início da tarde aterrámos em St. Petersburg com a Air Brussels, depois da escala efectuada em Bruxelas. No aeroporto não há indicações num alfabeto que não o cirílico, situação que se manteve durante quase todo o tempo em que viajámos pela Rússia. Armámos-nos em turistas e procurámos chegar ao hotel pelos nossos próprios meios, i.e., apanhar o autocarro e o metro. Os autocarros variam entre os bus a que estamos habituados na Europa e os mini-bus que me habituei a ver em África! Talvez estes não sejam tão podres como os chapas que transportam os africanos em África, mas também não se equiparam aos mini-bus turísticos da Europa.
Outra característica presente nas quase duas semanas que passámos na Rússia, foi a ausência de qualquer língua falada que conhecêssemos. É claro que um português não espera que se fale português a não ser no Brasil, nos PALOPs ou no momento em que se encontra um outro turista português, sim, porque eles estão em todo o lado! Mas o Inglês é hoje a língua universal por excelência, pelo menos nos locais turísticos. Pois nem na Praça Vermelha conseguimos comunicar em inglês, e quanto aos portugueses espalhados pelo globo, acho que deve ser mais fácil encontrar um na lua do que na Rússia!
St. Petersburg, também ex-Leningrado, é uma cidade muito bonita. Não será o exemplo de manutenção de parque imobiliário, mas é muito agradável passear pelas principais e atarefadas avenidas da cidade e atravessar os canais (a água não é limpa, mas também não estava à espera de encontrar aqui as águas que banham Geneva). Os edifícios são nobres e imponentes e até podemos imaginar o Lenine a passar por nós.
Nesta altura do ano as noites brancas de St. Petersburg são uma sensação e sob o lusco-fusco da meia-noite há imenso movimento na cidade.

Sobre os russos. Povo tenso e pouco simpático. As raparigas são muito bonitas e vaidosas com as suas tamancas altas e mini saias curtas, um pouco out of fashion though! Fazem-me lembrar as raparigas inglesas que não vivem em Londres. No geral, as pessoas são tímidas e até um pouco envergonhadas quando toca à comunicação. Os homens parecem muito carinhosos com as mulheres mas não são especialmente charmosos. Esta minha descrição, que é apenas a minha opinião, é mais branda em St. Petersburg, mas muito mais dura em Moscovo!
O parque automóvel caracteriza-se pelo 8 ou 80. Com excepção do Dubai, nunca tinha visto tantos Volkswagens Tuareg, Porches Cayene e Mercedes qualquer coisa do mesmo género, como em St. Petersburg e em Moscovo. Contudo, todos os restantes carros, e são muitos mesmo, são do século passado. O parque automóvel russo reflecte a sociedade russa: uma faixa de pessoas muito ricas (que provavelmente souberam aproveitar a Perestroyka, mesmo que de formas menos claras) e o restante da população, que vive hoje, na mesma ou pior do que viviam no regime soviético. Apesar deste contexto económico-social, os russos são muito patriotas e continuam a adorar a Mãe Rússia, mesmo com o Macdonalds ao lado, sempre traduzido em russo claro!
A tão falada máfia não parece incomodar. Além duns senhores vestidos com fatos pretos, arma à cintura, a saírem de grandes carrões com vidros fumados, não vimos mais nada de especial. Parece que o Putin conseguiu controlar os conflitos territoriais dos grupos mafiosos e agora parece que ninguém chateia ninguém.


Dia 3 de Junho
Pouco passava das 23:00 quando entrámos no Red Arow, o famoso comboio que faz a viagem diária nocturna entre St. Petersburg e Moscovo. É de facto muito engraçado. Os nossos bilhetes eram de 2ª classe, dado o elevado preço dos de 1º classe, cerca de 250 euros, por isso partilhámos uma cabine para 4 pessoas, ie, com quatro camas. Os nossos companheiros de cabine, dois russos, um jovem e um mais velho. Entraram mudos e saíram calados. Mesmo quando tentámos comunicar, recusaram-se. Muito estranho!

Dia 4 de Junho
A chegada a Moscovo foi intensa. Muitas pessoas, 10 milhões. Muita confusão. O percurso para o hotel, mais uma vez, à conta do nosso suor e lágrimas, foi incrível.Com um mapa do metro de Moscovo numa mão e o da cidade de Moscovo na outra (e com os troleys vermelhos atrás!), entrámos no metro. Por causa da experiência de St. Petersburg, já sabiamos como nos desenrascar (e não somos nós o povo do desenrascanso?). Uma de nós soletrava o nome da estação e a outra tentava encontrar um macht nas placas indicativas. Isto até seria fácil caso as letras não fossem em cirílico. "E ao contrário, N de pernas para o ar, um A com umas perninhas...". Foi assim que nos deslocámos e quase nunca nos perdemos, quase...! A dificuldade foi o enorme fluxo de pessoas, como a água de um rio a transbordar. As nossas manobras para decifrar as indicações faziam de nós peões mais lentos que facilmente eram levados na corrente. E eu achava que a estação do Jardim Zoológico do metropolitano de Lisboa, às 8 horas de uma manhã de trabalho era difícil! Outra das razões que nos levava a sair da rápida corrente de pessoas, eram as pausas para observar as estações mais famosas, os chamados Palácios do Povo, que Estaline quis construir em homenagem à nação trabalhadora.
Quanto ao hotel, só não digo que é surreal porque passados uns dias fiquei involuntariamente instalada num hotel de uma pequena e longínqua cidade da República da Buriatia e depois não teria palavras para o descrever. De dia, o Hotel Belgrad de Moscovo, 3 estrelas, perto do centro da Cidade, não se consegue encontrar. Quer dizer, o edifício está lá, grande e a ocupar um quarteirão inteiro, contudo, o aspecto é o de um prédio abandonado e não tem qualquer indicação de que se trata de um hotel. Por isso não foi muito fácil fazer o check-in. Também poderia dizer que não foi fácil porque nem na recepção de um hotel com preços mínimos de 225 USD por noite, o inglês era muito fluente, além de que a simpatia não morava ali! Mas enfim, à noite o hotel era muito mais fácil de encontrar, todo iluminado, até parecia um hotel super hi-tech.
Ouvimos falar inglês pela primeira vez em 3 dias no Kremlin, entre os grandes grupos de turistas. Comemos muito bem em bons e very fashionable restaurants. Especialmente sushi (não é só em Portugal que os restaurantes japoneses estão em ascenção). Não tivemos oportunidade de conhecer os clubs nocturnos moscovitas. A verdade é que a idade já não ajuda e andar o dia todo pede cama à noite!

Dia 5 de Junho
Não gostei especialmente de Moscovo. É interessante para matar a coriosidade, mas penso que não voltarei voluntariamente. Magnitude e Passado, são duas palavras que, em meu entender, caracterizam a capital da Rússia. Tudo é enorme, desde os edifícios às ruas e avenidas, mas tudo tem um ar antigo e pouco cuidado. Há zonas da cidade que convidam à realização de filmes de terror!

Três estações de comboios ficam na zona da Somolenskaya e não foi fácil saber qual era a nossa, dado que a indicação que vinha junto aos bilhetes do Trans-Mongolian estava errada, como viemos a concluir! E lá estava ele, não russo como tínhamos imaginado, mas chinês, o comboio que nos iria levar de Moscovo até Pequim. Era muito grande, talvez dez carruagens. A nossa casa sobre carris era a Cabine 1 da Carruagem 10, em 1ª classe. Era confortável e limpa, com excepção dos vidros das janelas! Duas camas, um sofá, uma mesa e um duche que partilhávamos com os vizinhos do lado, o Bruce e o Ken, irmãos, já na casa dos 50 e americanos. Dado que as portas do duche não trancavam por uma qualquer dificiencia que nos era alheia, avisavamos-nos uns aos outros sobre quando o duche estaria ocupado. "Guys, i am going to have a shower!".

Dias 6, 7 e 8 de Junho
Os 3 dias seguintes passaram-se muito calmamente acompanhados daquele som das rodas a percorrerem os carris. A paisagem siberiana é verde nesta altura do ano, estepes pintalgadas aqui e ali por pequenos amontuados de casas de madeira, quanto a mim demasiado velhas e frágeis para suportar a neve dos rigorosos invernos, 40º negativos, disseram-me! Por vezes a paisagem deixava de ser verde e passava a cinzenta. Cidades de suporte a grandes fábricas, ou minas, ou o que quer que seja que tivesse exigido em tempos grandes quantidades de mão de obra, que entretanto continua a sobreviver nestes enormes conjuntos de blocos de apartamentos com mais de 20 anos, ou mais.
No comboio a vida continuava entre a leitura, as conversas com os nossos vizinhos americanos e as idas à carruagem-restaurante, principalmente para tomar o pequeno-almoço, que a Zena, a empregada, uma russa roliça e de dentes de ouro, nos trazia rapidamente: café com leite instantâneo, um prato com fatias de pão, outro com pedaços de queijo e uma pequena taça com manteiga. Não havia variantes.
Nas estações saíamos do comboio e íamos às compras no shopping centre que era o emaranhado de vendedoras de toda uma variedade de produtos como pão, pastéis recheados de algo parecido com carne ou queijo, bananas, laranjas, frango assado de há alguns dias, peixe seco, cerveja e cigarros.

Dia 9 de Junho
Chegámos à última estação russa, que serve também de fronteira de saída da Sibéria para a Mongólia. Nesta estação não nos foi permitido sair do comboio enquanto o pessoal da fronteira verificava os passaportes e nos entregavam os formulários de entrada na Mongólia.
A senhora russa que viu os nossos passaportes gesticulou e apontou para a data de validade dos nossos passaportes. Foi então que percebemos, o visto terminara há umas horas atrás, precisamente no dia 8. Ninguém se lembrou da diferença horária quando o visto foi emitido. A culpa começou por ser nossa, que indicámos o dia 8 como dia de saída da Rússia, mas passou pela agência de viagens que não verificou as datas, pela própria embaixada que emitiu o visto, pelos responsáveis pelo comboio que não verificaram os passaportes quando entrámos no comboio em Moscovo e finalmente terminou nos funcionários da fronteira Russa, que apesar de verem o que era mais do que óbvio: duas turistas a meio da viagem de comboio, de saída para a Mongólia, retiraram-nos do comboio e deixaram-nos simplesmente ali, nos confins da Sibéria, sem qualquer possibilidade de comunicação, dado que, como já referi, não se fala inglês e nada se encontra traduzido para um alfabeto nosso conhecido.
Confesso que, quando vi o comboio a afastar-se da estação, tive um momento de desalento, “E agora, como é que vamos sair daqui?!”.
O problema nem era tanto como iríamos sair dali, mas se sairíamos a tempo de voltar a casa na data marcada, 6 dias depois, de avião, de Pequim para Portugal. Exactamente dali a uma semana deveríamos chegar a casa e recuperar energias para voltar ao trabalho. Seria Sábado e a Sónia deveria voar de Portugal para França, em trabalho, no Domingo, e eu teria que regressar ao trabalho na 2ª feira.
Na mesma situação, fora do comboio e com o itinerário interrompido, estava um casal de ingleses de meia idade, o Jiles e a Peny. Viajavam rumo ao Japão para visitar a filha. Tinham decidido fazer uma viagem diferente e nesta altura do campeonato, o arrependimento estava estampado nas suas caras.
Um quinto elemento tinha ficado ainda apeado, o qual viria a ser o nosso “herói para sempre”, é o que significa Munkbaatar, que era o nome de um espião mongol que trabalhava para a União Soviética, e que colocou o mesmo nome ao neto, o Michael, nome com que o rapaz mongol, que também tinha sido retirado do comboio por falta de visto, se nos apresentou. O Michael, já esperava não conseguir passar a fronteira, pois estava ciente que tinha deixado o seu visto algures em parte incerta, depois da festa de despedida que os amigos lhe fizeram, regada com muito vodka. É produtor na estação de televisão pública da Mongólia, que o enviou para Moscovo, para fazer uma espécie de especialização. Regressava à Mongólia, tendo ficado retido na Sibéria, tal como nós. Só tinha umas pequeninas vantagens sobre nós: falava russo (e para nossa sorte, arranhava o inglês) e estava a cerca de oito horas de carro de casa, UlaamBaator, capital da Mongólia.
O Michael foi uma espécie de anjo da guarda que nos caiu do céu, disfarçado de guerreiro mongol, com os seus dois carrapitos de cabelo negro, a sua pele muito branca e os seus olhos em bico. Ficámos fascinados com a figura e ele acabou por ser o modelo para muitas fotografias à moda dos turistas.

Dia 10 de Junho
03:00, entrámos num comboio que seguia em sentido contrário àquele em que pretendíamos ir, i.e., íamos nos afastar da fronteira com a Mongólia, para o interior da Sibéria. Esta ideia, custou-me muito digerir, mas não havia alternativa, tínhamos que nos dirigir à cidade de Ulan Ude, para conseguir obter o visto que nos permitiria sair definitivamente da Rússia. Assim, a viagem durou cerca de 5 horas e chegámos ao destino de manhã cedo, depois de um sono mal dormido nas camas do comboio, que pareciam peças de lego suspensas em diferentes direcções.
No entretanto percebemos (agora o plural refere-se aos cinco e até poderíamos baptizar esta escrita de Os Cinco na Sibéria), que na 3ª feira seguinte, dia 12 de Junho, era feriado nacional na Rússia, e que estávamos presos num fim de semana longo e teríamos que aguardar 3 dias até que algum organismo público pudesse tratar do nosso assunto. Foi o que nos explicou a pessoa designada pelo Embaixada portuguesa em Moscovo para nos acompanhar, à distância claro, porque em Ulan Ude, a diferença horária é de + 5 horas que em Moscovo, o aeroporto russo mais próximo é em Irkutz, que fica a 12 horas de comboio, e a fronteira com a Mongólia fica a 3 horas de carro.
Mas o contacto com as entidades oficiais que nos podiam ajudar não foi fácil. No Sábado à noite, ainda dentro do Trans-Mongolian e na eminência de ter que o deixar, tentei ligar o número da embaixada portuguesa em Moscovo que vinha no guia que levava comigo. Nada, o número nem funcionava. Depois tentei a embaixada russa em Lisboa. Atendeu-me uma senhora russa, que no seu limitado português me informou que não me podia ajudar, mas deu-me o número do cônsul, para quem liguei logo de seguida em vão, ninguém atendeu. Já em terra, a Sónia, um bocado zangada e desesperada por estar naquela situação, ligou à amiga Joana, que ao perceber o estado de espírito da amiga, se desdobrou em tentativas telefónicas a quem nos pudesse ajudar, uma das quais, a comunicação social, na pessoa do José Rodrigues dos Santos, que passou a ser mais um dos nossos heróis, ou anjos da guarda ou whatever. No Domingo, o nosso querido jornalista informou a Joana que o Ministério dos Negócios Estrangeiros já estava a par da situação e que iria agir. De facto, na 2ª feira de manhã, recebemos um telefonema dum senhor português, muito preocupado com a nossa situação e assegurou-nos que estava a fazer os possíveis para nos ajudar a sair do país. Contudo, teríamos sempre que esperar por 4ª feira, dia 13, o dia em o país voltava a funcionar.
A partir deste momento a Marsha, funcionária da embaixada portuguesa em Moscovo esteve sempre em contacto connosco e foi incansável. Temos que prestar os nossos agradecimentos à embaixada e em particular à Marsha, que foi a nossa esperança durante a nossa estada forçada em Ulan Ude, Sibéria. Ainda pensámos que poderíamos contar com o apoio da embaixada britânica, mas eles nem se preocuparam em saber como o Jiles e a Peny estavam, simplesmente disseram-lhes que nada podiam fazer. Ainda fiquei mais orgulhosa da minha nacionalidade!

Dia 11 e 12 de Junho
Os dias seguintes começaram por se passar com alguma angustia, apesar da minha constante tentativa para animar o grupo e do humor britânico sempre conveniente do Jiles.
Quando todos interiorizaram que de nada valia o desespero, pois nada mais poderiamos fazer senão aguardar pela 4ª feira 13, o ambiente desanuviou e acabámos por aproveitar um tour turístico organizado pela Madame, é como eu lhe chamo porque nunca me lembro do longo nome dela. A Madame é uma senhora buriatia, que fala russo, mongol e inglês, dona de uma empresa operadora turística, onde emprega os seus conhecimentos adquiridos ao longo de muitos anos de guia turística, ainda durante o regime soviético. Mais uma vez, no meio de tanto azar, o nosso Michael descobriu esta Madame, que se tornou a responsável por nós em território russo (uma vez que estávamos em situação ilegal para todos os efeitos), e acabou por nos acompanhar até quase ao final desta aventura.

Visitámos um mosteiro budista e uma aldeia do povo chamado The Old Believers, que são uma espécie de Amish, só que na Rússia e não nos EUA. No fundo é uma comunidade que tenta preservar os seus costumes através dos séculos, o que não é assim tão difícil numa terra tão distante como esta! Fomos convidados a jantar numa das típicas casas de madeira com janelas pintadas de azul e decoradas com flores coloridas. As casas fazem-me lembrar a casa do avô da Heidi, feita de troncos redondos de madeira. Prepararam diversas iguarias deliciosas que acompanhámos com vodka caseiro. Não me parece que vá querer sentir o cheiro de vodka nos próximos anos! É que esta refeição deu-se dois dias depois de eu ter posto em prática o plano B de relaxe, beber para esquecer! E o resultado foi uma noite muito atribulada para a Sónia e uma grande dor na minha cabeça na manhã seguinte.
Mas as anfitriãns eram rijas, embora parecessem mais velhas do que os cerca de 70 anos que envergavam. Tinham bigodes e vozes de canto como as nossas senhoras das aldeias do interior norte português.
Apesar de não partilharmos um dialecto comum, entendemos-nos perfeitamente, entre gestos e expressões. É incrível como é fácil unir povos e culturas quando a isso estamos dispostos. Gostei muito da experiência, até porque foi o dia do meu 2º casamento a fingir. É verdade, depois do casamento no deserto, em Marrocos, com o meu lindo noivo dos camelos, o Hassan, agora casaram-me por esta tradição da buriatia, com o Michael, o meu noivo guerreiro asiático (o que está a dar é coleccionar noivos de raças diferentes!). Mas o conjunto era, no mínimo, exótico: uma portuguesa vestida com várias saias coloridas e um toucado enorme na cabeça, a dançar com um mongol de carrapitos na cabeça e túnica amarela, rodeados por um grupo de senhoras a cantar, numa aldeia na buriatia, republica Russa encravada entre a Sibéria e a Mongólia.

Dia 13 de Junho
09:00, todos a postos à porta do hotel, prontos para seguir para o tal organismo público a que chamávamos embaixada. Os cinco refugiados, a Madame e o Munka, o motorista, que também era médico.
A hora limite para sair de Ulan Ude em direcção à fronteira com a Mongólia era às três da tarde, caso contrário não conseguiríamos atravessar a fronteira que fechava às sete.
09:30, chegamos à embaixada.
09:35, fomos informados de que não havia energia no edifício e por isso não seria possível emitir os vistos.
Faço aqui uma pausa para imaginarem os minutos que passaram até conseguirmos acreditar que naquela altura passávamos a não poder sair do país porque a electricidade não chegava àquele edifício...
Mais uma vez a pressão da nossa embaixada em Moscovo e a preserverança da Madame, conseguiram convencer os funcionários públicos que teriam que encontrar outro local ou teriam que emitir os vistos à mão. Não sei bem como tudo se processou, só sei que entre as 10:00 e as 16:00, andámos num corrupio entre entrevistas com polícias, na presença de tradutores que mal falavam inglês, tirar fotografias tipo passe, assinar documentos e longas esperas. Às 16:15, a Madame vinha a correr com os vistos na mão, entrou na carrinha onde já nos encontrávamos e o Munka arrancou rumo à fronteira. Foram 3 horas de tensão, por um lado pela incerteza sobre se conseguiríamos passar a fronteira, por outro com receio que o Munka adormecesse ao volante, pois os olhos rasgados que víamos pelo retrovisor, por vezes pareciam duas linhas finas. Entre cantigas e muita conversa forçada chegámos à fronteira, e o grande portão de arame farpado já estava fechado.
Mais uma pausa para imaginaram as nossas expressões desoladas...
Desta vez apenas os conhecimentos e o respeito pela Madame nos safaram. Ela conseguiu que abrissem o portão e a fronteira foi aberta de propósito para nós passarmos.
Já em solo mongol fizemos uma festa. Não queríamos acreditar que tínhamos conseguido sair da Rússia.
Jantámos e seguimos viagem, pois a saga ainda não tinha terminado. Agora eram mais 5 horas de viagem até UlaamBaator e já tínhamos sido alertados para o facto do espaço aéreo do aeroporto Jangis Kaan estar encerrado por causa do mau tempo. Tínhamos um voo marcado para o dia seguinte às 18:00, de UlaamBaator para Pequim, e se não o conseguíssemos apanhar, não chegariamos a tempo de apanhar o nosso voo de Pequim para Madrid no dia seguinte às 11:40.
Bem, uma coisa de cada vez. Agora teríamos que chegar à capital mongol, o que aconteceu de madrugada, às 04:00, depois de uma viagem de terror, à noite, numa estrada estreita, com muitos camiões e outros veículos pesados, muitos deles acidentados. Acho que esta foi a parte mais perigosa de toda a viagem. Mas felizmente chegámos sãos e salvos ao hotel mais chique da cidade. Apesar de nos termos deparado com uma grande confusão de americanos e coreanos exaltados por causa dos cancelamentos dos voos, o que vinha confirmar as nossas suspeitas, naquela noite acho que, bem ou mal, todos dormimos. Eu e a Sónia ficámos numa enorme suite, com duas grandes camas fofas de lençóis brancos e macios. O difícil foi acordar na manhã seguinte!

Dia 14 de Junho
O dia começou cedo e estava chuvoso. Fomos levantar os nossos bilhetes de avião da Air Mongolia, a companhia aérea que mais possibilidade tinha de cumprir com os voos estipulados, dada a experiência dos pilotos mongóis na descolagem e aterragem de aviões no meio daquelas montanhas. Foi esta a razão que nos fez, 2 dias antes, reservar os bilhetes na Air Mongolia e não na Air China. É claro que quem reservou os bilhetes foi o Michael, pelo telefone, na sua língua materna. Por esta altura o Michael já estava em casa, mas acompanhou-nos até às 16:00, hora em que nos deixou no aeroporto. Detesto despedidas!

Adorei a Mongólia, não só por influência do Michael, mas porque era tudo o que não estava à espera. Em UlaamBaator, qualquer que seja a direcção em que olhemos, vemos montanhas. A cidade é composta de muitos prédios e tem o aspecto de qualquer cidade com um milhão de habitantes. Os arredores estendem-se pelo sopé das montanhas, sob a forma de casas de madeira e yourds (não sei se é assim que se escreve), as casas típicas da Mongólia. Parecem tendas redondas e ao que parece são muito quentinhas e confortáveis no Inverno, que é a maior parte do ano. Têm um pequeno quintal à volta, uma cerca, o carro estacionado ao lado e por vezes até têm antenas parabólicas. Tal como na Sibéria, nesta altura do ano tudo é verde e castanho, mas acho que deve ser muito bonito quando tudo estiver coberto do branco da neve.

Resumindo, o nosso avião para Pequim, que vinha de Tokyo, descolou era quase meia noite. Mas descolou, viva!

Dia 15 de Junho
02:00, chegámos a Pequim. Foi aqui que nos separámos dos nossos companheiros ingleses. Já disse que não gosto de despedidas. Foi simples: um abraço e buy, bye! Eles são o máximo!
Apanhámos um taxi para o hotel que tínhamos reservado inicialmente por 4 noites e que ficava mesmo ao lado da Cidade Proibida! Dormimos à pressa e acordámos cedo para termos tempo de dar uma volta de taxi pelo centro da cidade antes de seguirmos para o aeroporto, onde teríamos que estar por volta das 10:00. E assim foi, passámos pela Praça Tienamen e rumámos ao aeroporto. Deu para percebermos que Pequim é hoje uma cidade muito organizada e é visível que os jogos olímpicos 2008 estão à porta.

Finalmente estávamos de regresso a casa, no Boing 767 da Aeroflot Russian Airlines. Por mais bonitos que achem os aviões, nunca cometam o erro de viajar nesta companhia aérea, nem que vos paguem. Depois não digam que não avisei.
“Comissário de Bordo (Cromo): - xni3dsçpawkfnhbjshfvlçqwkçqwdk...
Nós: - Inglish please!
Cromo: - No inglish, this is russian airlines!
Nós: de boca aberta, até agora.”
Tivemos que gramar com os russos outra vez, no avião Pequim-Moscovo, no aeroporto de Moscovo, onde ficámos 2 horas e no avião Moscovo-Madrid!
Chegámos a Madrid às 23:00. Nunca me senti tão feliz por estar no meio dos Espanhóis.


Dia 16 de Junho
Depois de uma noite bem dormida (desta vez num hotel das redondezas do aeroporto de Madrid e não no aeroporto, nele próprio!), apanhámos o nosso lindo avião Airbus 230, da nossa querida TAP, com as nossas razoavelmente simpáticas hospedeiras, até à nossa magnífica cidade de Lisboa!

Rita Salteiro



Nota 1: Talvez a opinião sobre os russos constante neste relato, ainda esteja um pouco influênciada pelos estranhos episódios ocorridos!
Nota 2: Sorry se encontrarem mtos erros (já demorou tanto tempo a escrever que agora não estou com paciência para revisões!).

Nov03 CahoraBassa

Novembro de 2003

Há já algum tempo que queria visitar a barragem de Cahora Bassa, mas ninguém me queria acompanhar nesse passeio.
- Ver a barragem Rita, lá no fim do mundo, com aquele clima tão quente que nem se consegue respirar? És doida! – Dizia o Miguel convicto.
- Mas como é que sabes que não consegues respirar? Já lá foste por acaso?
- Não fui ao Songo, mas fui a Tete, que é ao lado. E tu também já foste e sabes muito bem o que te espera.
- Fui e respirei muito bem, como todas as pessoas que lá vivem. Ok, não queres ir mas eu vou – disse decidida – só tenho que encontrar uma companhia, ir sozinha não tem piada – com quem é que se partilha as coisas bonitas que se vê? Não tem de facto piada.
- Duvido que vás encontrar alguém que te acompanhe – disse o Miguel em tom de gozo.
Ele sabia que me fascinava conhecer a África profunda, neste caso, o Moçambique profundo. E acabava por ouvir, também ele fascinado, as histórias das minhas viagens, quando voltava das minhas aventuras, mas sempre sem ele, que arranjava uma qualquer desculpa para ficar perto da sua casa de banho. O moçambicano é muito estranho, eu pensava, com um país lindo para descobrir, vão passar férias à África do Sul, ao Brasil, às Maurícias ou a Portugal. Os que têm dinheiro claro, o resto da população já vive no mato mesmo.
Procurei durante algum tempo e lá encontrei a minha companhia para visitar o Songo. O Hugo, o meu amigo violinista. O Hugo tinha vindo para Maputo há cerca de seis meses, dar aulas de música e, mais concretamente, de violino, na Escola Portuguesa. Estava maravilhado com o país, não fosse ele um artista!
Para chegar ao Songo, sem ser de carro, o que demoraria uma eternidade, fomos no Beachcraft de uma companhia aérea doméstica moçambicana, cujo dono tinha sido meu instrutor de pilotagem e era, como eu, membro do Aeroclube de Moçambique. Uma personagem muito engraçada, sempre muito aéreo, como é típico dos pilotos por amor à aviação.
O voo fez escala no Chimoio, província de Sofala, e em Tete. Novamente o aproximar da pista, enquanto os embondeiros se iam tornando maiores e maiores, até parecerem gigantescos.
A pequena aeronave levantou voo em direcção ao Songo e repentinamente saímos de uma planície de tons castanhos secos para entrar no meio de montanhas verdejantes, tipo Jurassik Park. E lá estava a barragem, encravada no meio de uma profunda garganta de rocha maciça. Fabuloso!
A entrada na pista do pequeno aeroporto faz-se por um vale a considerável altitude, passando de quase mil pés de altitude, para cerca de trezentos pés, com a pista logo ali. É uma manobra arriscada e não é qualquer piloto que a faz com confiança.
No aeroporto do Songo não aterram aviões de maiores dimensões, aliás, mesmo os que lá aterram, aproveitam parte da pista em terra batida, já que o asfalto não é suficiente, principalmente para a descolagem, que em dias quentes, pode levar mais tempo. Com o calor o ar é menos denso e é necessária mais velocidade para tirar a aeronave do chão. Tantas explicações, deve ser defeito de aprendiz de piloto!
A dificuldade em arranjar companhia para fazer esta viagem, só mostra que ninguém sabe do que se está a falar. A vila do Songo é um verdadeiro oásis em Moçambique. É o único local com água potável à torneira, piscinas públicas em bom estado de conservação, casas térreas com magníficos jardins, ruas sem lixo, pequenos recipientes para o lixo espalhados pela vila e não se vêm barracas, nem pessoas pobres a viverem na rua. Tem uma delegação da Escola Portuguesa, um Centro Social, com quartos com casas de banho privativas, restaurante, esplanada e uma bela piscina, para acolher os visitantes. É claro que tudo isto é suportado pela barragem, que criou todas estas infra-estruturas durante a época colonial, mas que surpreendentemente, as mantém. A barragem é a sexta maior do mundo em capacidade e uma das mais avançadas em tecnologia. A HCB – Hidroeléctrica de Cahora Bassa é a maior empresa da economia moçambicana, todavia, é também o seu maior prejuízo. A ideia foi fabulosa, e um autentico feito na história da construção, dado que foi construída na década de setenta, numa zona tão remota. Contudo, a energia produzida por Cahora Bassa, vai além fronteiras, para a África do Sul e Zimbabué, não havendo ainda infra-estruturas que a leve através do seu próprio país.
À chegada e logo à porta do avião, recebeu-nos o Sr. Abel, relações públicas da HCB. Um senhor muito simpático, já com alguns cabelos brancos, que trabalhava na empresa há várias décadas e que ali via o seu futuro. Contou-nos, que há uns anos atrás tinha voltado a Portugal, mas que não conseguiu lá sobreviver muito tempo, e regressou à HCB e ao Songo.
O Sr. Abel levou-nos a visitar as instalações da empresa nesse mesmo dia, e foi aí que aprendemos a história da barragem e pudemos observar a sala de comandos e a tal tecnologia de ponta a funcionar. Só iríamos visitar a barragem na manhã seguinte, em conjunto com um grupo de pessoas que viria de Tete.

Acordámos cedo e estávamos de pequeno-almoço tomado quando o Sr. Abel apareceu com a sua carrinha Ford já um bocado ferrugenta. Estava frio. O Songo, ao contrário do que se pensa, não é assim tão quente, pelo contrário, tem um microclima muito característico, com neblinas matinais e uma aragem fresca.
Iniciámos a descida para a barragem, numa estrada que serpenteava a colina até ao rio. Quando apareceu no nosso raio de visão fiquei estupefacta, um verdadeiro colosso. 172 metros de altura de um lado. 140 metros de profundidade da água do outro, que delimita o grande lago de Cahora Bassa, com 240 quilómetros de comprimento, até à fronteira com o Malawi. De onde me encontrava, olhava para o cimo das paredes escarpadas unidas pela barragem, apenas até meio da sua altura. Deviam ter cerca de 350 metros de altura!
O grupo juntou-se. Uma família de cinco pessoas, incluindo três crianças, um casal jovem e nós. Entrámos nas várias viaturas que ali se encontravam estacionadas. Descemos por um túnel enorme, onde cabiam dois camiões lado a lado, e que serpenteou sempre a descer, até sair da rocha. Estávamos no ponto mais baixo da barragem e daqui podíamos ver de baixo para cima, a imensidão da parede da barragem. Daqui podíamos ouvir com grande intensidade o barulho da água que saía à pressão da única comporta aberta e caía cá em baixo com grande estrondo. Não nos conseguíamos ouvir uns aos outros.
Entrámos novamente dentro da rocha e continuámos a descer, até que a carrinha parou e saímos para nos juntarmos ao grupo e entrar.
- Entrar onde? – Perguntava ao Sr. Abel enquanto o Hugo olhava para cima, para o tecto do gigante túnel, completamente espantado.
- Vamos fazer a visita às salas onde se encontram as turbinas – O Sr. Abel ria do nosso espanto.
Estávamos completamente dentro da rocha e eu tentava imaginar como teriam conseguido escavar aqueles túneis há trinta anos atrás. Ouvia-se uma espécie de som aquático, como se estivéssemos rodeados de água, que não víamos. O cheiro não consigo descrever, mas acho que cheirava a gruta!
Colocámos uns capacetes amarelos e abriram a pesada e grossa porta que dava acesso à tal “sala” que íamos visitar. Parecia uma daquelas portas dos laboratórios onde se estudam vírus perigosos, que selam completamente quando fechadas. Entrei e demorei algum tempo a processar o que via. A “sala” era um grande rectângulo escavado na rocha, com a área de um campo de futebol de onze jogadores, e a altura equivalente a um prédio de quatro andares, que era o número de pisos que se encontravam ao fundo, junto a uma das paredes de rocha, com paredes de vidro e onde diversas pessoas se movimentavam de um lado para o outro. O Sr. Abel chamou um senhor alto, vestido com um fato de macaco azul, igual ao de todos os outros trabalhadores. Seria a pessoa que nos iria explicar o que ali se passava.
Mais ao menos a meio havia um grande buraco redondo, onde se encontrava uma das turbinas da barragem. Encontrava-se para baixo, ao longo de uma altura equivalente a mais quatro salas como aquela. Para nos dar a ideia da dimensão da turbina, estava uma das suas peças, em manutenção, que pesava apenas 900 kg. Ainda hoje me sinto muito pequenina quando imagino a Barragem de Cahora Bassa.
Naquele dia conhecemos o tal casal jovem que fazia parte do grupo. O Max e a Isabel. Ele italiano, ela espanhola. Ele enfermeiro e ela médica. Trabalhavam para a AMI, em Tete e eram namorados. Nunca tinha contactado com ninguém tão de perto que fizesse trabalho voluntariado em países subdesenvolvidos, que tanto precisam de ajuda humanitária, principalmente de cuidados básicos de saúde.
O único trabalho humanitário que eu fazia, era ajudar, com um grupo de mais quatro amigas, um orfanato em Maputo, com muitas crianças órfãs de pais vítimas de HIV/Sida. Muitas dessas crianças eram também seropositivas, outras deficientes profundas. Todas elas abandonadas e sem mais ninguém no mundo. Comprávamos roupas e outro material necessário para o orfanato. Era muito doloroso. Os bebes, mesmo os mais pequenos, agarravam-se às nossas pernas e sorriam olhando para cima. Apenas queriam mimos e atenção. Ao pegar numa criança ao colo, já sabia o quanto iria doer deixá-la. Elas sorriam, completamente alheadas do seu futuro.
Com o Max e a Isabel, eu e o Hugo, fomos fazer um passeio de barco pelo lago de Cahora Bassa. O tempo estava fresco e a neblina tapava o cume das montanhas que rodeavam o lago. Cheirava a terra molhada, um dos meus cheiros favoritos em África. Em vários locais encontrámos pequenas canoas, feitas de troncos de árvores, com homens escuros, com apenas um pedaço de tecido sujo a cobrir-lhes o sexo. Eram habitantes de pequenos conjuntos de palhotas, situadas nas margens do lago, que lhes dava o seu meio de subsistência, a pesca. Eles remavam, levando atrás pequenas redes de pesca, e sem receio das dezenas de hipopótamos que se banhavam junto às margens. Neste contexto, o homem e os hipopótamos são inimigos, dado que os animais destroem muitas vezes as culturas dos habitantes junto às margens do lago.
Fascinava-me aquele contraste. Ali mesmo ao lado de uma das maiores barragens do mundo, construída pelo homem e apetrechada com a mais alta tecnologia, viviam uns senhores de tanga, que pescavam em canoas rudimentares e se passeavam no meio dos hipopótamos. África!

Depois deste fim-de-semana, tão rico de informação, regressamos a Maputo, pela mesma via, pelo mesmo meio. O Hugo vinha um bocadinho abatido. Ele é franzino e até tem um aspecto frágil. Agora estava também branco e tremia de frio. Acho que não aguentou o clima do Songo! Mas passados uns dias, já recomposto e com as nossas fotografias já reveladas, contávamos as nossas aventuras aos nossos amigos.

Rafting

Maio de 2003

Há muito que andávamos a planear um fim de semana de rafting na Swazilândia e finalmente tudo estava a postos.
Naquela 6ª feira saímos do trabalho à pressa para conseguirmos passar a fronteira da Namaacha, entre Moçambique e a Swazilândia. Dos quatro carros que seguiam rumo aos pequenos libombos, a cordilheira de montanhas que separa estes dois países, apenas três chegaram à fronteira. O Nuno Gonçalo e o David ficaram pelo caminho com um problema mecânico. Nenhum de nós ficou para ajudar, porque senão, nenhum de nós conseguiria apanhar a fronteira aberta. Mas eles juntaram-se nos no dia seguinte.
O programa era o mesmo de sempre: chegar a Ezwini Valley, fazer o check-in no Mantenga Lodge e jantar no Calabash. Num fim de semana normal, iríamos ainda até ao casino do Royal Swazi e na manhã seguinte, spa para uns e golfe para outros. Mas este fim de semana seria diferente. Acordámos cedo e juntámos-nos a um outro grupo, de sul-africanos, perto do rio. Dois a dois lá fomos carregando as canoas até à água, e aí começou a aventura pelos rápidos de água fria, a roçar o gelado!
Com os capacetes na cabeça e os coletes salva-vidas, lá fomos, levados pela corrente, dentro da canoa, debaixo dela ou simplesmente agarrados a ela. Acabámos o dia exaustos e felizes por não termos avistado nenhum crocodilo, não seria a primeira vez que grupos inteiros de rafting tinham desaparecido, mas isso não seria por aquelas paragens, eram histórias do Zimbabué ou na Namíbia. Mas nunca se sabe!

Niassa


Mais um final do ano em África. Mais um 31 de Dezembro quente. Mais um reveillon passado na praia, com roupas brancas, leves, a fazerem sobressair os bronzeados de verão.
Foi por esta altura que a Filipa, a Joana e o Gonçálo me contaram a sua viagem-aventura ao Niassa, relatada com a ajuda das fotografias, em formato digital, que me foram mostradas no laptop, que tinham trazido de propósito para este efeito.
Faziam parte dos “contactos”, porque estavam em Moçambique através do Programa Contacto, iniciativa do ICEP, para colocar jovens portugueses recém-licenciados no mundo do trabalho, através de protocolos que permite aos eleitos ganhar experiência no estrangeiro. Os “contactos” iam e vinham, todos os anos e eu ia ganhando sempre novas companhias para conhecer o país, dado que os “contactos” tinham sempre um espírito aventureiro e queriam aproveitar o máximo durante o ano ou dois anos, no máximo, que tinham de contrato de trabalho em Moçambique. Estavam de passagem e tinham que aproveitar antes que se tornasse tarde e já estivessem de volta a Portugal.
Alguns ficavam pelos países para onde tinham sido enviados, acabavam por prolongar os seus contratos de trabalho, mas seriam sempre “contactos”. Era o caso da Filipa, que tinha chegado a Maputo há três anos com um contrato de um ano apenas.
Chegaram a Lichinga de avião. Na capital da província do Niassa, apanharam uma boleia para Metangula, junto ao lago do Niassa, o décimo maior lago do mundo. Não há transportes públicos, por isso é muito fácil encontrar uma caixa aberta de alguma carrinha que leve as pessoas até ao seu destino. Juntamente com batatas, pneus, cabritos e mais pessoas, fizeram uma viagem de mais de cento e cinquenta quilómetros, por estrada de terra batida. Nas fotografias, estavam amarelos avermelhados, do pó que os cobria, da ponta dos cabelos à ponta dos pés.
Chegados ao destino dirigiram-se ao hotel onde tinham reservado dois quartos. Só no Niassa, a província mais remota de Moçambique e a menos desenvolvida, se poderá considerar um conjunto de quartos dispostos em fila, como se de casas geminadas se tratassem, sem casas de banho e com um pequeno bar que servia de restaurante, um hotel!
Mas de acordo com os narradores, tudo parece aceitável quando se abre a porta do quarto e se depara com o lago. Uma verdadeira praia com ondas de crista branca.
- E banho? – Perguntei curiosa.
- Bem – respondeu a Filipa a rir – o banho era à moda macua (banho com um alguidar de água e um pequeno recipiente com o qual se pode molhar o corpo), mas as pessoas lá fazem tudo no lago, desde lavar a roupa, a loiça, lavar os dentes ou tomar banho, tudo se faz no lago!
Fiquei com muita pena de não ter conhecido o Niassa, foi a minha grande falha.

Out02 A Ilha

Outubro de 2002

A minha amiga Ana acabava de chegar a Moçambique, para o que seria a primeira das suas várias viagens a este país. Vinha de Portugal, carregada com as suas máquinas fotográficas especiais, com o objectivo de visitar a Ilha de Moçambique, o objecto de trabalho do seu próximo projecto: fazer a Ilha em três dimensões.
A Ana nunca foi uma pessoa comum e a nossa amizade também teve um início muito diferente. Foi minha professora de matemática no 10º ano de escolaridade. As nossas vidas levaram rumos diferentes até que se voltaram a encontrar uns anos depois, eu já a trabalhar e com a minha vida académica dada por concluída, e ela, a trabalhar na área de investigação, já com um doutoramento em fotogrametria, tirado em Londres. Desde então sempre fomos muito próximas, apesar de não nos vermos assim tanto. A Ana é uma pessoa complicada, mas muito engraçada, e tem uma característica que nos trás empatia, é muito tolerante e ser tolerante é a minha forma de vida para entender o mundo.
Aproveitei a deixa para conhecer a tão polémica Ilha de Moçambique e lá fomos as duas. De avião até Nampula e de carro alugado até à Ilha. Não posso dizer que todas as pessoas vão dizer da Ilha o mesmo que dizem do Palácio de Alhambra ou das Pirâmides do Egipto, mas posso dizer que para mim a Ilha de Moçambique é o mais belo e misterioso lugar que conheci.
Tem apenas três quilómetros de comprimento e nem um de largura, e nesta pequena área convivem muçulmanos e católicos, edifícios de pedra e cal e de macuti, edifícios grandiosos e em ruínas e casas amontoadas, igrejas com meio século, mesquitas barulhentas e pequenos templos hindus, mulheres negras de caras brancas pintadas, jovens de fato de mergulho e botijas às costas e meninos de óculos partidos, a chegarem à praia vindos do mar com meia dúzia de lagostas em cada mão. Na Ilha é possível sentir a respiração do Camões e imaginá-lo ao nosso lado a escrever um pedaço dos Lusíadas. Na Ilha é possível subir à muralha do forte e imaginar as caravelas ao largo, carregadas de tesouros, especiarias e mercadorias em trânsito entre as Índias e o velho continente, que agora repousam no fundo do mar.
Na Ilha é possível encontrar os desertores dos lugares comuns, como o Gabriel, arquitecto italiano de 30 anos que deixou Milão para viver e trabalhar na Ilha. Reconstruiu uma ruína, transformando-a numa bela casa de tons pastel, que alterna entre divisões com tecto e divisões ao ar livre, jardins e quartos amplos em estilo árabe. Trabalha pela internet. E aluga alguns dos quartos da sua casa para visitas como nós.
Há outros como ele, sejam arqueonautas ou missionários. Mas a Ilha não é para todos. É sobrepovoada, tem pobreza e gente que defeca na praia. A Ilha é para quem entende que todos lá se encaixam, que a pobreza não é de espírito e que os muçulmanos se lavam em vez de usarem papel higiénico. É claro que seria preferível que o fizessem em casa, com os práticos chuveirinhos existentes na maioria das casas de banho nesta zona do país. Mas é preciso ter paciência, porque as casas de banho são agora uma novidade para quem sempre viveu na Ilha.
Eu não me dei por vencida e encontrei a mais bela praia do mundo. O segredo é deixar a maré baixar, contornar o forte e voilá, uma pequena praia digna de capa de revista, com pano de fundo de uma muralha e águas claras a perder de vista.

Um dia, numa troca de e-mails sobre um pequeno filme com imagens captadas na Ilha de Moçambique, foi assim que a descrevi: “A magia não está no DVD em causa e o que muda realmente a vida de uma pessoa é uma visita à Ilha de Moçambique, o que os autores do DVD tentaram registar, e muito bem na minha modesta opinião. Para se perceber os mistérios da Ilha é necessário sentir os odores vindo do Índico quente e da confusão e versatilidade dos menos de 3 km2 de terra sobrepovoada e separada do continente por outros 3 km de água clara e transparente. É preciso percorrer as pequenas passagens entre as casas de macuti e sonhar com os moradores dos edifícios de pedra e cal, actualmente apenas ruínas, vestígios do modo de vida dos nossos antepassados descobridores, destemíveis conquistadores, visionários de um mundo maior e mais distante, talvez os pré-históricos da globalização!
O forte militar numa das pontas da Ilha acolhe a mais antiga capela do hemisfério sul (dizem alguns historiadores) e esconde a mais bela praia em que alguma vez estive. As areias brancas dão à água salgada uma tonalidade quase fuorescente, pintalgada pelas ilhotas que parecem saídas de um livro de histórias de encantar (e das quais, me perdoem a falha, não me lembro os nomes): a que tem plantado o farol e a que é delimitada por muralhas defensivas, que apenas podem incentivar o receio quando o nível da água as faz parecer mais altas.
São muitos os tesouros vendidos por ninharias, verdadeiros ou falsos, como os coloridos colares de missangas e as velhas moedas de reis, que nos deixam a divagar sobre a sua origem. Verdadeiras e por verdadeiras ninharias, são vendidas as lagostas acabadas de pescar por garotos com originais óculos de água e ainda mais originais bóias de sinalização, feitas de garrafas de plásticos presas por cordéis. Verdadeiras e mal-cheirosas são as máscaras brancas nas peles negras das mulheres, que lhes dão um ar teatral e torna banal o preço da beleza. Verdadeiras e arrepiantes são as lápides do interior das igrejas, datadas do século XVI e inscritas com os nossos mais antigos apelidos.
Disseram-me que são cerca de meia centena, os barcos afundados nos arredores, atracção dos arqueonautas, muitos deles vindos do mundo ocidental desenvolvido e que encontram aqui um pequeno mundo de maravilhas paradas no tempo. São alguns os que se deixam seduzir pelos feitiços da Ilha e lá se instalam definitivamente ou por enquanto! Outros são os que não se esquecem e recordam nas imagens de um DVD um dos mais, senão o mais, maravilhoso local do mundo... desculpem o entusiasmo, mas é fácil perceber que sou apaixonada pela Ilha!”

Out02 Scubadiving

Outubro de 2002

Eu estava sorridente para a vida, quando iniciei o meu curso de mergulho. Foi o concretizar de um desejo desde a minha chegada a Moçambique. O que precisava para poder mergulhar nas águas límpidas e quentes da costa moçambicana.
Vi peixes de todas as cores, corais imensos, mantas gigantes e tubarões-baleia, inofensivos e enormíssimos animais marinhos.
O meu único problema: o enjoo. Apesar de encantada com o fundo mar, nunca foi muito agradável a parte em que as náuseas me deixavam doente para o resto do dia. É por isso que nunca fui uma boa companheira de mergulho. Que o diga o meu sempre buddy de scubadiving e amigo Nuno! Ele já sabia que eu nunca o ajudaria em cima de um barco ou em cima de qualquer outro objecto flutuante. Ele já sabia que depois de me ajudar a colocar a pesada botija de oxigénio às costas e de verificar o meu equipamento, eu saltaria para dentro de água, sem sequer olhar para trás! Todavia, «lá em baixo», acho que sempre fui uma parceira atenta.

Out02 Cessna152

Outubro de 2002

O meu passo seguinte foi o curso de pilotagem, que me permitiria, numa primeira fase, pilotar mono motores. Um conhecimento muito útil, num tão grandioso país, onde o conceito de distância vai além do «vá para fora cá dentro» de fim-de-semana, normalmente sobre quatro rodas.
O Miguel, já com a sua licença de Piloto Particular de Aviação na mão, desincentivou-me desta aventura. Achava que eu não seria capaz de acompanhar as aulas teóricas, não teria tempo para estudar para os exames, nem para as aulas práticas.
- Eu vou tirar o curso – disse-lhe decidida – Não tenho a aspiração de ser piloto, apenas quero aprender a pilotar.

Já estava na minha quinta hora de voo. Comecei muito bem, principalmente com a fonia, pois treinava em casa:
- Good morning Maputo tower. Charlie Niner Alfa Romeu Quebec (C9 ARQ).
- Good morning Alfa Romeo Quebec, go ahead.
- ARQ, on Força Aérea hangar, request permission for a local trainning flight, over Costa do Sol, endurance...
Na Torre todos os controladores aéreos primavam pela simpatia. Desde o despacho, aos pilotos instrutores e a todo o pessoal da Força Aérea, escola onde era aluna, sempre me senti muito apoiada. Mas a minha fantástica progressão foi interrompida pelo cansaço. Acordar às 4:30 da madrugada para ir voar e depois continuar um extenuante dia de trabalho, passou a ser um sacrifício para mim.
Depois de regressar de umas pequenas férias, não voltei às aulas de pilotagem. Mas voltei a voar. Acompanhava o Miguel em belos passeios sobre a Baía de Maputo, até à ilha de Inhaca ou até ao Bilene, entre discussões ao manche, como as discussões que tinha com o meu pai ao volante do automóvel, quando aprendia a conduzir.
Fazíamos passeios de avião, num Cessna 152, como se fazem passeios de carro, ou de barco, ou de bicicleta!

Mar02 Balão


Março de 2002

Eu, o Markus, o Hélio e a Jónia, todos pára-quedistas. A Jónia foi a minha companheira de curso, mas desistiu no seu terceiro salto, quando foi aterrar no telhado do hangar. Foi um salto que ninguém esquece, pois o Markus também se magoou ao sair do avião e partiu uma omoplata, enquanto que o Sérgio teve uma emergência e foi aterrar na linha-férrea.
Os quatro, saímos de Maputo numa sexta-feira ao final da tarde, rumo à fronteira de Ressano Garcia, mesmo a tempo de a apanhar aberta e passar para território sul-africano. Apesar de irmos na pick-up Ford do Markus, o Hélio é que conduzia, enquanto que o Markus levava o mapa e lhe dava as indicações sobre a direcção para chegarmos ao lodge onde tínhamos reservado uma noite de estadia. Era um dos lodges em redor do Kruguer National Park, a norte da cidade de Nelspruit, que já conhecíamos bem, pois era o destino regular para compras dos moçambicanos mais abastados.
O objectivo era um passeio de balão de ar quente na manhã seguinte, na madrugada seguinte mais propriamente, pois era suposto vermos o nascer do sol já no ar.
Eu e a Jónia, no banco de trás, riamos com a discussão do condutor e navegador. Acho que já estávamos perdidos há muito tempo, mas só confirmámos, quando nos deparámos com um cruzamento pelo qual tínhamos passado há uma hora atrás. Alterámos a estratégia. O Markus passou a condutor e eu a navegadora, sempre tive bom sentido de orientação e até já ganhei um rally-paper. O Hélio passou para o banco de trás, para junto da sua mais que tudo. O Hélio e a Jónia fazem um par muito engraçado. Ele, um português muito branco, e ela, uma moçambicana bastante escura. É um bonito contraste, já que são os dois muito bonitos e elegantes. Na África do Sul, onde o apartheid não foi uma ilusão e não há misturas de cor, o par fazia parar o trânsito.

passava da meia-noite quando chegámos ao nosso destino e quase não dormimos, ou como eu digo muitas vezes, dormimos a correr, porque às três e meia da manhã estávamos a pé e prontos para a nossa viagem de balão. Foi muito bonito, muito suave e tranquilo. Demasiado tranquilo para quem salta de pára-quedas. Sobrevoámos o Kruguer e o mais engraçado foi a aterragem, dado que os balões, apesar de se manobrarem minimamente, não se conseguem aterrar com precisão. Depois de um copo de champanhe sem pequeno-almoço, que nos ofereceram em pleno voo, as manobras para evitar um imenso bananal que roçávamos, pareciam muito mais engraçadas do que realmente eram. Acabámos por aterrar junto a um lago, ou direi, dentro do lago, já que metade do cesto estava dentro de água. Foi um dia inesquecível, pois quem se vai esquecer de um passeio de balão em plena selva.

Mar02 Skydiving


Março de 2002

Vestir o fato, preto e vermelho, com as «pegas» amarelas (para que os queda-livristas se possam agarrar no ar, enquanto caem a uma velocidade média de duzentos quilómetros por hora), colocar o pára-quedas às costas, o altímetro no pulso, os óculos e o capacete na cabeça e seguir para a inspecção, antes de entrar no avião.
A descolagem é, em Moçambique, acompanhada de gritos e assobios de todos os pára-quedistas, assim que as rodas deixam o solo. É por isso que gosto tanto de saltar em Moçambique, há um convívio muito especial entre os meus brothers skydivers, embora o espírito da queda-livre seja fantástico em qualquer parte do mundo, ou pelo menos nas dropzones onde já saltei.

A subida, mais ou menos rápida, dependente da capacidade da aeronave e da quantidade de pára-quedistas que vão lá dentro, vai permitindo fazer o reconhecimento da zona. Chegados aos dez mil pés de altitude, quase quatro mil metros acima do chão, vem a parte que mais gosto, não fosse o frio que invade o espaço interior do avião quando a porta se abre. São menos dois graus centígrados por cada mil pés de altitude, o que no Inverno pode ser bastante desagradável. Um a um, os pára-quedistas queda-livristas, vão saindo às ordens do jump-master, incumbido de fazer o spot e coordenar o salto. Sempre fiquei para o fim na saída do avião, principalmente, devido ao meu peso, quase no limite do mínimo exigido. São cinquenta quilos, mais os dez do pára-quedas, e quando estava a aprender, levava ainda vestido um colete de chumbo para chegar ao peso do meu instrutor. Ver sair os restantes companheiros do load é divertido, cada um tem um tique que o identifica. Eu gosto de tomar balanço para me atirar para o ar, fazer resistência ao vento e sentir a liberdade de voar.
Dependendo da altitude do salto, poderá haver mais ou menos segundos de queda-livre. Dos dez mil pés, são cerca de 50 segundos até à altitude de segurança para a abertura do pára-quedas. Em menos de um minuto é possível gastar energias comparáveis a um dia inteiro de ginásio.
Sempre me diverti muito nos meus saltos. O meu logbook apresenta muitas descrições de saltos «just for fun». 360, loops, tracks, tudo é possível. Nunca cheguei ao free-style profissional, mas era uma amadora de manobras estranhas que faziam as gargalhadas dos meus amigos.
Depois de abrir o pára-quedas e de sentir que estou viva, sem ter a necessidade de recorrer a nenhum procedimento de emergência, é só usufruir da paisagem e voar até aterrar, sem nenhum incidente, de preferência.
Eu já tive alguns episódios engraçados. Já aterrei fora da zona prevista por três vezes. Uma devido a uma saída tardia, quando já me encontrava só no avião, outra devido a um problema na abertura do meu pára-quedas e uma terceira por puro erro de cálculo face à intensidade do vento. Já saltei para a praia, ao pôr-do-sol, aterrando por um triz na areia branca, evitando a água salgada e os coqueiros. Já aterrei entre árvores, tendo que rezar para não ficar pendurada numa delas. Na África do Sul, na Suazilândia, em Portugal e em Moçambique.

Aeroporto de Tete, 40 graus à sombra e 35 graus à noite, provavelmente! Saímos do B737 no final da tarde. Eu e o mister Ângelo, o meu instrutor de pára-quedismo em Moçambique. Tínhamos uma comitiva à nossa espera, ou à minha espera mais objectivamente. Acho que ficaram desiludidos quando me viram, acho que esperavam uma mulher grande a transpirar força e coragem. Deparam-se com uma miúda de um metro e sessenta, cinquenta quilos e um ar gracioso, como se o meu objectivo fosse um espectáculo de ballet. Chagávamos para nos juntarmos ao resto do grupo de pára-quedistas para um show-jump que ia ocorrer no dia seguinte, Sábado, por ocasião das festas da cidade. Eu fui convidada obrigatória por ser o único elemento do sexo feminino. Numa situação normal, o número máximo de pára-quedistas que podiam encher o Cherokee do comandante Barroso, não permitiria que eu fosse abrangida, pois a ordem seria descendente por experiência e eu era uma das pára-quedistas mais recentes no grupo. Tinha apenas 25 saltos, o que em qualquer parte do mundo era insuficiente para participar num show-jump, mas em Moçambique o cumprimento das regras nunca foi exemplo e as leis da física nem sempre funcionam em África!

Chegou o grande momento dos dois saltos para um campo de futebol que não ficava muito longe do aeroporto, de onde descolávamos. Dos quarenta saltos que tenho registados no meu logbook, os dois saltos em Tete foram os únicos em que não tive frio, pelo contrário, enquanto o avião subia, lentamente, não via a hora de sair e apanhar o vento relativo a oito mil pés. Foi fantástico, como quando se acaba de correr cinco quilómetros debaixo de sol e se mergulha em água fresca. Demorei alguns segundos para localizar a drop-zone. Era o primeiro salto e acima dos quatro mil pés de altitude, tudo cá em baixo me parece igual, principalmente numa zona desconhecida. Acabou por não ser difícil, pois era só seguir as dezenas ou centenas de pessoas que corriam, como formigas, vindas de várias direcções, para se juntarem num ponto escuro, era o campo de futebol. A zona de aterragem era um pequeno círculo feito por pessoas que inundaram o campo e nem as balizas se viam. Com pouca experiência em aterragens precisas, fiz um esforço enorme e lá consegui acertar bem no meio da circunferência, mas a aterragem foi tão dura que bati no chão e rasguei o meu fato no joelho direito, zona que até tem um reforço protector. O Ângelo, com centenas de saltos e experiência em aterragens de precisão, acabou por apanhar uma senhora na aterragem, que seguiu para o hospital, mas apenas com ferimentos ligeiros. Apesar de um pára-quedas ser bastante manobrável, nem sempre se consegue conduzi-lo exactamente para onde se quer. Basta um erro de cálculo entre manobras, altitude e posição face ao vento, e lá se vai para ao capim.
A multidão estava eufórica. A maior parte daquelas pessoas nunca tinha visto um pára-quedista, quanto mais um grupo de seis que saltava só para eles.
Corremos para a carrinha que nos levou ao aeroporto, pois ainda tínhamos o segundo salto. Eu estava agora mais confiante. O meu receio de não conseguir aterrar no local certo, ou me estampar contra um dos muitos obstáculos que circundavam o campo de futebol, desaparecera. O campo de futebol era de terra batida, com duas balizas em ferro e sem qualquer linha de campo visível. Um dos topos tinha duas torres de luz e um grosso fio eléctrico que as unia, enquanto que o outro apenas tinha uma árvore no meio de um descampado, esse seria o lado ideal de entrada, não fosse o vento que não o permitia usar. Uma das laterais do campo tinha casas térreas e a outra, uma bancada em cimento que terminava do lado de fora, num alto muro.
Dobrávamos os pára-quedas na sala vip do aeroporto, uma pequena sala, com alguns sofás velhos, um pequeno mini-bar e sem ar condicionado. A ordem do comandante foi dada, “Temos que ir agora, ou já não nos autorizam a descolagem”. O sol estava quase a pôr-se e sem luz não se fazem voos visuais. O meu pára-quedas não estava fechado. Fechar o saco que envolve a calote, é a parte mais difícil, principalmente para mim, que ainda usava uma 200, muito tecido para meter dentro de um pequeno saco! A alternativa, levar o pára-quedas que tínhamos trazido de reserva, muito velho, com calote principal de 190 pés e com um slider que não lhe pertencia, era maior do que devia. Todos sabíamos isso e todos olharam para mim quando me viram pôr o pára-quedas às costas e entrar no avião. Ninguém disse nada. Confesso que não foi uma viagem agradável, com a dúvida sobre a funcionalidade do equipamento que me iria proteger a vida. Nunca se deve saltar sem um sentimento 100% seguro de que o equipamento está operacional e nas melhores condições. Parece básico, mas a maior parte dos acidentes ocorrem precisamente por negligência do pára-quedista, é o que chamamos de excesso de confiança, que, como em tudo, pode ser mortal.
Quando saí do avião, já não havia raios de sol e tudo me parecia um bocado escuro lá em baixo. Saímos a seis mil pés, por isso a angustia de ver o pára-quedas a abrir demorou muito pouco. Larguei o piloto e olhei para cima expectante. A calote abriu, mas tal como eu esperava, não totalmente, pois o slider não conseguiu descer até ao fim. Mas no problem, encontrava-me a voar em perfeição e com óptima manobralidade. Quando me concentrei para entrar no circuito de aterragem, já estava muito perto e decidi seguir o Ângelo. Entrei atrás dele pela parte lateral do campo que tinha as bancadas de cimento. Tinha descido demasiado e tive que levantar os pés para não bater no topo do muro. Apesar desta razia, aterrei que nem uma pena, como diziam os meus companheiros de desporto.
Tirei o capacete e ficou à vista o meu cabelo curto, com reflexos avermelhados. Ainda nem tinha apanhado a calote do chão, quando um homem baixo me levantou o braço pegando-me no pulso e me levou a percorrer o campo junto à população, falando alto e com tom de discurso. Sem eu perceber muito bem o que se estava a passar, uma mulher chegou perto de mim, observou-me com curiosidade e sem pedir licença, apalpou-me o peito, que não era assim tão visível dentro do fato de pára-quedismo. Gritou que eu era “minina”, fez-se silêncio e depois ouvi o meu nome, em uníssono e com a mesma cadência. Até autógrafos me pediram!
E agora vinha a festa. Depois do banho tomado e de um jantar com ementa igual para todos, um peixe típico do rio Zambeze do qual já não me lembro o nome, apenas me ficou na memória quão feio era, lá seguimos, em grupo para a night de Tete. Como já sabia, os pára-quedistas são uma curiosidade em terras do interior e logo surgia um grande club de fans feminino, que nos perseguia por toda a parte.

Algumas meninas com curiosidade de saber como se fazia pára-quedismo ou só pela desculpa de se aproximarem dos meus colegas, ou alguns rapazes mais atrevidos (naquela noite de Tete, saiu-me na rifa o vocalista de uma banda rock moçambicana que se deslocaram também de Maputo, convidada para actuar nas festas da cidade).
Foi nesta altura que conheci o Markus, que viria a ser meu amigo e companheiro de muitos passeios e aventuras.
O Markus é uma pessoa fantástica. Simpático, prestável, amoroso e amigo, e também um homem bonito, com traços que fazem lembrar os gregos, o que poderá ser imaginação minha, devido à sugestão de um pai grego, o que também não seria suficiente, dado que a mãe é brasileira. Como se não bastassem os genes multiculturais, o Markus nasceu no Líbano, de onde rumou para África, passando primeiro por Angola, antes de ir parar a Moçambique, como um expatriado, como eu. É um homem interessado e sempre ávido de aprender. Fala e escreve árabe, francês, inglês e português, embora este último com um sotaque brasileiro e africano em simultâneo.
É o amigo mais gentlemen que tenho ou que alguma vez tive e, acima de tudo, um verdadeiro amigo.
Fizemos viagens para conhecer novos locais e quebrar a rotina da vida em Maputo. Saltámos juntos, visitámos Johanesbourg down-town, onde nunca ninguém me tinha acompanhado antes e muitas mais coisas. Eu podia estar triste ou contente, mas o seu espírito alegre fazia-me sentir sempre bem. Agora que a distância nos separa, é com carinho que o guardo como amigo para sempre.